A sátira histórica de Moacyr Scliar

Este é um retrato do escritor brasileiro Moacyr Scliar em sua biblioteca
O escritor Moacyr Sclliar na biblioteca de sua casa. Foto: Lisette Guerra, Divulgação, Companhia das Letras

Em duas dezenas de romances escritos ao longo de quatro décadas de carreira, Moacyr Scliar (1937–2011) várias vezes levou seus personagens a cenários distantes tanto no tempo como no espaço. Parte de Na Noite do Ventre o Diamante se passa na Holanda do século 17, tendo como personagem o filósofo Baruch de Spinoza. A Estranha Nação de Rafael Mendes tem uma de suas partes protagonizada por Maimônides, filósofo e médico judeu do século 12. Os Vendilhões do Templo vai aos tempos bíblicos enfocar o período de pregação de Jesus pelo olhar de um comerciante colhido por uma das poucas explosões de ira registradas nas narrativas oficiais da vida de Cristo. Em A Mulher que Escreveu a Bíblia, recua mais ainda, contando a história pela voz da concubina mais feia do harém do mítico Salomão, o terceiro rei de Israel.

O passado do Brasil também foi vasculhado pela narrativa romanesca de Scliar, em Porto Alegre ou fora dela. A imigração judaica foi tema de romances como O Centauro no Jardim e A Guerra no Bom Fim. A Revolta da Vacina de 1904 é o clímax de Sonhos Tropicais, assim como a renúncia de Jânio Quadros e a instabilidade política que se seguiu são cruciais na trajetória do protagonista de Mês de Cães Danados. O último romance publicado por Scliar, Eu Vos Abraço, Milhões, é um acerto de contas com a utopia esquerdista com a qual o próprio escritor comungou na juventude, ambientado no representativo 1930 da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.

Pois com tantos mergulhos ficcionais na história, Scliar não era um romancista histórico, ao menos não no sentido comumente aplicado ao gênero desde Walter Scott até seus exemplares modernos como Bernard Cornwell ou Robert Harris. Scliar era, isso sim, um satirista, ao modelo clássico de Swift — sabia usar a história mais como pretexto do que como cenário. Como o Gulliver que viaja por várias terras que nada mais são que uma caricatura da Inglaterra do século 18, os personagens de Scliar, por mais que se movimentem no passado, estão na verdade em nosso presente, comentando a realidade contemporânea que o autor via e vivia.

Os aspectos históricos que Scliar manejava em sua ficção estavam alinhados com o lema famoso de Benedetto Croce: “toda História é contemporânea”. Em vez de buscar a máxima verossimilhança na ambientação, nas ações e mesmo na linguagem, Scliar abraçava deliberadamente o anacronismo como um elemento de humor, pelo estranhamento que produziam em seus livros conceitos de nosso mundo transplantados para o passado. Em apenas um de muitos exemplos possíveis, o “vendilhão” que protagoniza a primeira parte de Os Vendilhões do Templo, no ano 33 da era cristã, é retratado como um protocapitalista cheio de projetos mirabolantes para expandir seu negócio –a venda de pombos para sacrifício na entrada do templo de Israel: uso de réplicas de madeira no lugar de aves de verdade, diversificação do uso dado aos pombos, automação do abate ritual e até um grande “congresso internacional de vendilhões”.

E é de uma hilaridade inegável ler esse comerciante do primeiro século cristão empregar termos de “otimização de negócios” tão populares nesta era capitalista: “O aperfeiçoamento de recursos humanos seria um objetivo importante do evento. O despreparo na área era evidente e propiciava situações grotescas, constrangedoras. O vendilhão do Templo tinha observado que muitos de seus colegas maltratavam os pombos: vai morrer mesmo, resmungavam, melhor descarregar a raiva numa ave idiota do que na família.

Aqui se fala tanto dos romances porque nos contos Scliar operava com outro modelo, embora com o mesmo humor e os usos dos mesmos recursos, como os já citados anacronismos e a repetição de frases e sequências em contextos diversos para obter efeitos cômicos. Nos contos, Scliar buscava uma narrativa mais semelhante à parábola bíblica ou às elipses de Kafka. Nos romances, a estrutura narrativa se tornava mais complexa. Em muitos deles, Scliar evitava a terceira pessoa totalizante utilizando truques que acrescentavam novas camadas à arquitetura narrativa. Sonhos Tropicais é narrado por um médico desempregado que espera a chegada de um eminente pesquisador estrangeiro interessado na vida de Oswaldo Cruz. Enquanto o visitante não chega, o narrador reconta a história do sanitarista a uma curiosa segunda pessoa, falando sozinho com o próprio Cruz.

Em Manual da Paixão Solitária, o ponto de vista pelo qual a trama é contada oferece uma chave que torna possíveis os anacronismos intencionais: a história dos irmãos Er, Onan e Shelá, filhos do patriarca bíblico Judá, é narrada alternadamente por dois especialistas em estudos bíblicos que apresentam, em um congresso de pesquisadores, trabalhos muito pouco científicos e bastante literários. Passar por esta premissa um tanto fantasiosa para a primeira moldura da trama é, no fim, o grande desafio do leitor _ porque quando envereda pela narrativa bíblica propriamente dita, Scliar conduz seus leitores com a destreza habitual, discutindo na desértica Israel centenas de anos antes de Cristo questões de individualidade e gênero que afligem nossos dias no século 21.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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