Julian Barnes reconstitui momentos-chave da vida de Shostakovich em “O Ruído do Tempo”

O compositor russos Dmitri Shostakovich. Foto: Roger & Renate Rössing / Deutsche Fotothek, Wikicommons

A história de um artista sob um regime autoritário é, mais do que a narrativa de sua vida e de sua obra, uma especulação sobre todas as obras possíveis que não puderam ser feitas devido às garras de ferro da tirania. É assim que o escritor inglês Julian Barnes decide apresentar o compositor russo Dmitri Shostakovich (1906–1975) em seu romance O Ruído do Tempo (Rocco, 180 páginas).

Escritor com o domínio elegante de uma prosa que se desdobra como se escrita sem esforço (o que deve significar que na verdade exigiu um esforço monumental), Barnes é também autor de O Papagaio de Flaubert e Arthur & George, outros dois livros que fazem uso mais ou menos livre de passagens biográficas de artistas de verdade. Em O Ruído do Tempo, ele monta a estrutura romanesca a partir de três momentos fundamentais na vida do compositor russo. As três passagens encontram Shostakovich em uma cena estática, a partir da qual as reflexões, ansiedades e fraquezas do escritor recuam no tempo até dar conta da trajetória artística e biográfica do músico.

A primeira parte, situada em 1936, é aberta com uma imagem poderosa. Um jovem Shostakovich parado à frente do elevador de seu prédio, esperando os agentes da NKVD que, ele acredita, virão buscá-lo por ter caído em desgraça ante Stálin em pessoa — que compareceu ao concerto de sua ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk e a detestou, considerando os ousados recursos realistas com que descrevia as ações um “ruído” formalista decadente, uma música “apolítica e confusa”, que “despertava o gosto pervertido dos burgueses”.

Capa de “O Ruído do Tempo”

Na segunda parte, Shostakovich está em um avião, pronto para retornar à Rússia após a visita de uma delegação de artistas soviéticos aos EUA realizada em 1949 para um congresso pela paz. Embora ainda esteja vivo, o que é um feito dada a primeira queda em desgraça e a sanha dos expurgos stalinistas, Shostakovich ainda se debate com os mesmos problemas. Após ser recuperado como compositor popular por algumas obras escritas durante a II Guerra, está outra vez perto de ser considerado um modelo de como os artistas podem se afastar da revolução. O tom desafiador e a coragem íntima que Dmitri exibia em 1936 foram substituídos por um tom de conciliação com as exigências cada vez mais caprichosas do poder soviético.

O escritor inglês Julian Barnes. Editora Rocco, Divulgação

Na terceira parte, em 1960, o compositor está no banco de trás de um carro, sendo levado para mais um encontro definidor com “o Poder”: será “convidado” a se filiar ao Partido Comunista. Não se engane o leitor: esse convite feito a um Shostakovich mais velho é uma ameaça ainda mais perigosa do que o medo do jovem compositor de ser levado pela polícia secreta. É o testemunho final de como o gênio comprou o tempo para produzir suas obras-primas sendo forçado a contínuos acordos com um sistema totalitário faminto e irredutível.

Ao fim, o verdadeiro “ruído do tempo” (título que cita as memórias do poeta Óssip Mandelstam, curiosamente traduzidas aqui no Brasil, numa antiga edição da Editora 34, como O Rumor do Tempo) é o subtexto da cacofonia entre os monólogos melancólicos em que Shostakovich tenta entrar em acordo consigo mesmo e os diálogos tensos com o Poder (Stálin, seus esbirros, Nikita Khruschev), nos quais “uma única sílaba ligeiramente errada” representa a diferença entre vida, liberdade e morte.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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