Lobo Antunes e os melhores títulos da ficção

António Lobo Antunes no Salão do Livro, em Paris, em março de 2010. Foto de Georges Seguin, Wikicommons

Não sei como anda a apreciação crítica e acadêmica hoje em torno da obra de Lobo Antunes. Tenho para mim que já foi maior (há 10 anos seu trabalho começou a ser reconhecido no Brasil, sua obra completa foi relançada e ele foi um destaque em Paraty. Depois disso já vi aqui e ali uns textos apontando seu estilo mais como gongorismo do que como arte de fato). Realmente não sei.

Mas não era sobre isso este post, e sim sobre uma coisa que sempre achei: Lobo Antunes é um dos sujeitos que melhor escolhem os títulos para seus livros, que incluem pérolas como Conhecimento do Inferno, Eu Hei-de Amar uma Pedra, Esplendor de Portugal, Meu Nome é Legião ou Explicação dos Pássaros. São títulos às vezes limítrofes com a poesia e plenos de ressonâncias que — isso é importante — antecipam a leitura que se seguirá (não raros são os títulos que prometem mais do que o conteúdo do livro).

Batizar um livro uma arte, e há livros que despertaram meu carinho de leitor já no título. Mesmo quando o título era melhor que a obra ele permaneceu na minha cabeça com tudo o que sugeria em termos de atmosfera e de tramas insinuadas, mesmo que não concretizadas. Foi pensando ainda nisso que elaborei, por pura distração, a seguinte Lista de Livros com os Títulos Mais Legais de Todos os Tempos, assim em maiúsculas e em tom estentóreo para remeter a Nick Hornby e às listas de cinco melhores que ele cravou na cultura pop dos anos 1990 pré-pandemia depois de Alta Fidelidade (é um bom título, e ainda por cima com mais de uma possibilidade de leitura, mas não entra na minha lista. Pro meu gosto falta uma certa atmosfera épica/lírica/misteriosa).

Resolvi ignorar Hornby e subir minha lista de dez para cinco livros. Depois, decidi dividir a lista entre livros de língua portuguesa e em tradução, assim tenho duas listas totalizando vinte, o que por enquanto é suficiente para meus delírios de megalomania. Ah, sim, claro, a lista é absolutamente pessoal e não diz nada sobre os livros em si.

Em Língua Portuguesa:

> Boa tarde às coisas aqui embaixo, de Lobo Antunes

> Pescoço ladeado de parafusos, de Manoel Carlos Karam

> Sonho interrompido por guilhotina, de Joca Reiners Terron

> Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares

> Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil

> Todos os nomes, de José Saramago

> O verde violentou o muro, de Ignácio de Loyola Brandão

> Um deus passeando na brisa da tarde, de Mário de Carvalho

> O sangue das horas, de Cassiano Ricardo

> A estrutura da bolha de sabão, de Lygia Fagundes Telles

Em obras de lingua estrangeira:

> Vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro (o original Remains of the day também seria incluído numa lista semelhante que abordasse apenas títulos originais, mas o que usaram na tradução mais recente, Os resíduos do dia, eu já não colocaria nesta lista)

> Meu ano de Descanso e Relaxamento (Só o título. O livro eu achei uma legítima pilha de matéria fecal fumegante) de Ottessa Mussafegh

> A chuva antes de cair, de Jonathan Coe (esse nem é o meu livro favorito dele, mas tenho um fraco por títulos que justapõe um substantivo na sequência de um advérbio de tempo, como poderia ter mencionado também O verão antes da queda, de Doris Lessing)

> Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace

> O chão que ela pisa, de Salman Rushdie

> O homem sem qualidades, de Robert Musil

> O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon

> Olhos de cão azul, de Gabriel García Márquez

> Todos os belos cavalos, de Cormac McCarthy

> Era uma vez o amor, mas tive que matá-lo, de Efraim Medina Reyes (outro livro que diminuiu bastante na minha apreciação desde que o li, mas o título ainda me impacta)

E vocês? Deixem sua lista de títulos instigantes. Não necessariamente o livro precisa ser bom, apenas o título tem de ser evocativo e vocês tem acharem que soa bem.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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