Maupassant, Tchekhov, concisão e crueldade

À direita, Maupassant retratado por Félix Nadar. À esquerda, Tchekhov

1. A seu modo, e a despeito de todas as diferenças de estilo entre ambos, Guy de Maupassant pode ser considerado o Tchekhov francês. Como o mestre russo, Maupassant foi um contista de influência seminal. O crítico americano Richard Fusco apontou, no livro Maupassant and the American Short Story, o quanto os aspectos formais do conto aperfeiçoados pelo autor francês
influenciaram contistas de língua inglesa — escritores como Henry James, Stephen Crane e Ambrose Bierce, admiradores de primeira hora e autores basilares para a “short story” que ainda hoje se pratica nos Estados Unidos.

2. É óbvio que o conto já era praticado antes de Maupassant, mas o francês foi um dos primeiros a perceber que os melhores eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor. Assumindo o ponto de vista do leitor, Maupassant, em uma linguagem correta e sóbria, mas sem a exuberância de seu mestre Flaubert, burilou seus enredos e tornou modelo o conto sem ornamentos, com uma história confinada em limites estritos que provocariam um efeito intenso de miniaturização da vida.

3. O paralelo entre Tchekhov e Maupassant também pode ser traçado para além da atuação de ambos como contistas (Maupassant se dedicou mais à narrativa longa do que o russo), mas se estende até a circunstâncias biográficas inusitadas. Ambos se foram ainda jovens, vitimados pelas doenças comuns de seu tempo — Maupassant morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis, enquanto Tchekhov pereceu aos 44, de tuberculose. E apesar da vida relativamente breve, ambos espantam com uma produção extensa e de altíssima qualidade. Talvez o caso de Maupassant seja ainda mais assombroso,
dado que, discípulo de Flaubert, herdou dele a obsessão pela revisão incansável dos próprios textos, e só foi se considerar um “escritor profissional” depois dos 30 anos. Em uma década, portanto, mesmo revisando seus escritos com a obsessão de um ourives, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.

4. O que não se pode comparar em ambos, contudo, é a visão de mundo. Embora desencantados, os dois, Tchekhov, mesmo ao descrever seus seres mais patéticos, tinha uma ternura melancólica ausente por completo da obra do francês. Parceiro de Zola na empreitada do realismo, embora sem ser tolhido pelo cientificismo do primeiro, Maupassant dedicou-se à exploração do desejo, da solidão e do inferno interior com muito mais secura e crueldade.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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