O Zero e o Fim do Mundo de Ignácio de Loyola Brandão

Com Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela, autor encerra trilogia inesperada sobre aspectos de um Brasil distópico

Em O Beijo Não Vem da Boca, romance escrito em 1985, Ignácio de Loyola Brandão comparava o Brasil, que o protagonista reencontrava após voltar de uma temporada na Alemanha, a “um sorvete derretendo ao sol”. Uma metáfora que marcava a diferença radical entre a frieza alemã e a bagunça ao mesmo tempo doce e pegajosa deste país tropical. Hoje com mais de 80 anos, o escritor publica um novo romance sobre o descarrilamento social contemporâneo e, embora não apareça com todas as letras, a imagem agora é outra. No novo livro de Loyola, o Brasil é um cadáver apodrecendo.

Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela é uma súmula das inquietações do autor ao longo de sua prolífica carreira, trazendo, concentrados, vários elementos manejados por Ignácio de Loyola Brandão em outros momentos. No romance de título quilométrico — referência a um verso do dramaturgo Bertolt Brecht (1898–1956) –, Loyola cria uma distopia que é também uma leitura da realidade brasileira, conduzida por meio de uma prosa fragmentada em que registros se misturam, como o autor já havia feito em Zero (1975) ou Não Verás País Nenhum (1981) — livros que compõem com este uma trilogia informal de versões cada vez mais profundas de como o Brasil desce ladeira abaixo.

No futuro indeterminado de Desta Terra…, convivem elementos anacrônicos. Quase todos usam chips comunicadores implantados no corpo, em substituição aos ultrapassados celulares, mas ainda há trens, bondes e até cheques bancários. Imaginado como uma continuidade do atual cenário daqui a duas ou três gerações, o Brasil do romance é um pesadelo moral, político e social, no qual alguns dos elementos mais delirantes são simples extrapolações turbinadas de coisas que todos vimos recentemente nos noticiários.

Com a proliferação de partidos políticos movidos por interesses de seus líderes, o Brasil chega a mais de mil siglas, o que faz do posto de presidente uma cadeira giratória em que novos eleitos precisam ser escolhidos a cada mês, dado os impeachments constantes. A classe política caiu em tal descrédito que a própria palavra “político” foi abolida, substituída por “astuto”. A maioria dos ministérios foram extintos, os tribunais superiores se mudaram para bunkers-edifícios que ninguém sabe onde ficam e uma moléstia misteriosa, a Corruptela Pestífera, subproduto da corrupção geral, transforma os contaminados em uma gosma que precisa ser transportada por vagões lacrados em trens funerários.

Nesse pesadelo tropical, Loyola espreme ainda uma história de amor entre dois jovens tentando encontrar sentido no caos, os publicitários Felipe e Clara, e uma jornada pelo interior do Brasil, a exemplo de outros de seus livros, como O Ganhador (1987). Desta Terra… é, como a realidade que narra, excessivo, por vezes desconexo. É obra de uma imaginação vigorosa, mas menos coesa do que suas distopias anteriores.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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