Prosas pequenas de Amilcar Bettega

A foto, em preto e branco, mostra o escritor Amilcar Bettega, um homem branco, cabelos crespos, usando óculos camiseta e calça escuras, sentado diante de uma parece e olhando diretamente para a câmera
Foto: Maria Ana Krack / Divulgação

Sempre houve algo de inclassificável nos textos do escritor Amilcar Bettega, um tipo de força e tensão que muitas vezes é melhor discutida com enumerações do que com definições: sua prosa é concisa e ao mesmo tempo rica; seus contos (em livros como Deixe o Quarto como Está, de 2002, ou Os Lados do Círculo, 2004) têm o peso de um objeto tão bem elaborado que não sobram arestas; a impressão geral do conjunto é de uma literatura que é ao mesmo tempo plena e pede uma segunda leitura.

Mas havia uma última definição possível: esses textos, alguns deles pequenas gemas narrativas, eram certamente contos. Depois de uma incursão pelo romance com Barreira (2013), Bettega está de volta à forma curta com um conjunto de pequenas narrativas que implode mesmo essa instável certeza. Os escritos reunidos em sua mais recente coletânea não são contos, crônicas ou ensaios, são, como o próprio autor apresenta, “prosas”.

Prosa Pequena, livro que Bettega lançou no fim de 2019 e que venceu em dezembro de 2020 a categoria Narrativa Curta no Prêmio ARL da Academia Rio-Grandense de Letras, reúne 69 prosas breves produzidas ao longo de seis anos para uma coluna quinzenal que o escritor manteve no Terra Magazine, revista online capitaneada por Fernanda Verissimo e Bob Fernandes — hoje extinta e não mais no ar. Um autor que trabalha e burila seus textos de modo vagaroso e bem cuidado, Bettega aceitou a empreitada já com receio de precisar desistir passadas algumas colunas.

Capa do livro

— Eu aceitei o convite achando mesmo que não ia durar, que não conseguiria cumprir prazos, que ia ficar me preocupando com aquilo e não ia conseguir fazer outra coisa. Mas, estranhamente, fui fazendo, e eles foram saindo nessa forma que encontrei, não havia compromisso de fazer um conto de fato ou uma crônica mais fechada, era uma prosa. Quando eu percebi que rolava essa forma mais solta e livre, já fui escrevendo os textos com vistas a reunir em livro — conta o autor.

Mosaico

Ao todo, a experiência rendeu mais de 150 textos, dos quais Bettega selecionou o conjunto reunido no livro. Retrabalhou, aparou e os juntou em 23 seções compostas cada qual por três textos. Há textos sobre escritores e artistas, sobre pessoas que se olham e se observam, impressões de paisagens, memórias de elementos de infância e de viagens (o autor morou durante anos na França). Há figuras solitárias.

Embora haja elementos recorrentes em alguns desses blocos, justificando justaposição, o próprio autor admite que muito do mosaico narrativo composto pela estrutura é aleatório, já que há elementos que se repetem ao longo de todo o conjunto:

— Tem muito de aleatório, porque organizar 69 textos e dispor para que haja um percurso de leitura seria muito complexo. Mas há temas recorrentes em todo o livro.

Há textos que se fecham de modo surpreendente e circular, como os contos de Bettega. Há prosas mais imprecisas, criações de situações e atmosferas. Um dos pontos recorrentes não apenas deste livro mas do trabalho de Bettega como autor é a forma fluida como sua prosa parte da descrição de uma imagem e apela para a visualidade do leitor. A luz é um elemento muito importante na caracterização do ambiente e em muitas das epifanias dos personagens, como em Paisagem Contra o Sol, no qual um homem vaga por um deserto de fina poeira com uma cidade como miragem ao fundo, ou Buscar nas Árvores, sobre uma mulher que, colhendo frutas no pomar, deita-se à sombra de uma árvore para isolar-se do mundo: “Pensou de novo na beleza daquele céu cinzento sob o grande cogumelo verde. Como dizer daquilo? Havia muitas nuvens escuras. E a imagem do cogumelo desenhado contra o céu cinza insistia, mesmo se fechasse os olhos”.

— Normalmente é assim que eu funciono: parto de uma imagem, algo que sonhei, ou imaginei, mas é uma coisa visual que dá o pontapé, só depois é que vem o texto, e a minha escrita é isso, é colocar palavras em cima dessas imagens. E com um método, não sei se dá para chamar de método, mas um hábito de começar sem saber onde vai dar. E nestes textos, por serem trabalhos que iam para uma revista online, eu não sabia se ia aproveitar aquele texto em particular, não havia a cobrança de criar contos com uma unidade para juntar em um livro. Isso me permitiu uma extrema liberdade — define Bettega.

Uma primeira versão deste texto foi publicada originalmente na edição de Zero Hora de 29/10/2019

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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