Santos Dummond, o dédalo tropical

Há exatos 114 anos, inventor brasileiro realizava o primeiro voo do seu protótipo 14–Bis, em Paris

Santos Dumont decola com o 14-Bis no campo de Bagatelle, em 1906

Mas Alberto não se convenceu do bom resultado da prova e solicitou mais um mês, no mínimo, para repeti-la. Ele sabia que o motor de 14 HP tinha que ser trocado por outro, muito mais potente, e dedicou os próximos quarenta dias a determinar qual a potência que ele deveria ter. Finalmente, foi com um motor Levavasseur de cinquenta cavalos-de-força que o 14-Bis ressurgiu em Bagatelle, na manhã do dia 23 de outubro de 1906. A data mais ilustre da aviação universal.

Desta vez, informadas por grandes reportagens nos jornais, mais de mil pessoas tinham vindo assistir à prova. Embora fosse cedo, para os hábitos da elite parisiense, muitas mulheres elegantemente vestidas estavam presentes. Fotógrafos colocavam seus pesados equipamentos, apoiados em tripés, calculando os melhores ângulos para as fotografias. Até uma câmera cinematográfica, a maior novidade do momento, fora instalada para filmar a façanha de Santos Dumont.

Colocado no extremo norte do campo, o 14-Bis, agora visto com mais respeito por todo aquele povo, começou a movimentar-se às 8h45. Dessa vez, convicto de seu sucesso, Alberto tomou uma atitude que hoje chamaríamos de “marqueteira”. Antes de partir na velocidade máxima, dando oportunidade aos instantâneos dos fotógrafos, percorreu lentamente a pista como fazem os jóqueis com os cavalos de corrida. O povo entendeu a homenagem e o aplaudiu com entusiasmo.

No entanto, quando voltava ao ponto de partida, uma das rodas de bicicleta escapou do eixo e saiu rolando pela pista. O 14-Bis adernou para a esquerda, como uma ave ferida, e uma das pás da hélice espatifou-se contra o chão.
No meio da consternação geral, Arceadeacon voltou a perder a confiança no sucesso daquele voo. Tirando a cartola da cabeça, enxugou a testa, e disse ao repórter do Le Matin, um jovem que, três anos mais tarde, ficaria famoso ao localizar Santos Dumont, que se perdera voando durante a noite:

— Assim não vai dar. Este aparelho é frágil demais para um voo verdadeiro.

Mas Alberto convenceu os diretores do aeroclube a darem-lhe uma nova chance, e a prova foi transferida para depois do almoço. Exatamente às quatro horas da tarde do dia 23 de outubro de 1906, o motor do 14-Bis roncou com sua potência máxima. Depois de verificar que ninguém estava mais na pista, Santos Dumont tocou rapidamente na medalha de São Benedito, que nunca tirava do pulso esquerdo, e iniciou a corrida. Milhares de olhos, objetivas fotográficas e a câmera de cinema fixavam-se no aeroplano que avançava rapidamente pelo gramado. Pouco a pouco, as rodas foram-se desprendendo do chão e o 14-Bis ergueu-se a dois metros de altura.

Depois de voar por, mais ou menos, cinquenta metros, o aeroplano fez uma graciosa curva para a esquerda, sob o olhar incrédulo da multidão. Ciente, agora, de que ninguém mais duvidaria de sua façanha, Santos Dumont cortou o contato do motor e aterrissou, sem avarias, no campo de Bagatelle.

O milagre do primeiro voo de um aparelho mais pesado que o ar acontecera com o testemunho de, no mínimo, três mil pessoas. Muitas delas correram para junto de Alberto Santos Dumont, o arrancaram do seu posto de comando e o carregaram em triunfo. Nos próximos anos, graças ao trabalho e à coragem daquele homem, os aviões começariam a aproximar os continentes, tornando bem mais próximos todos os recantos da Terra.

O trecho que você acabou de ler é do perfil biográfico Santos Dumont, um livrinho de 128 páginas escrito por Alcy Cheuiche, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2006. A obra foi publicada há uns 10 anos pela L&PM como um dos nove primeiros volumes de sua coleção Encyclopaedia, uma série voltada à publicação de livros de bolso com menos de 150 páginas que, fiéis ao nome da coleção, trazem um ensaio de extensão média sobre um tema, personagem ou período histórico da humanidade, como um verbete extenso de uma obra de referência..

Em Santos Dumont, Alcy Cheuiche retorna ao personagem que retratou em seu romance Nos Céus de Paris para contar, de modo breve porém apaixonado, a vida do brasileiro de ascendência francesa que, além de homem de ciência, foi, em Paris, um protótipo do que hoje seria considerado uma celebridade, aclamado na imprensa por seus feitos, como o voo de dirigível ao redor da Torre Eiffel ou o voo do 14-Bis — que, como os leitores mais atentos do trecho já perceberam, foi realizado neste mesmo dia 23 de outubro, há 114 anos — não é sempre que eu consigo aproveitar um pretexto, uma efeméride ou um “gancho” para um post neste blog. Achei que este era bom.

No livro, Cheuiche também faz um conciso panorama do período e da escalada tecnológica que marcou a “corrida aérea” na época. Como se viu, Cheuiche também não se furta de apresentar sua opinião sobre a interminável controvérsia que opõe Dumont (1873–1932) e os Irmãos Wright (ele defende Dumont, é óbvio).

Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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