Veronica Stigger: sombras turvas no ermo

Livro da escritora enfileira duas dezenas de histórias em que o sarcasmo característico da autora convive com atenção maior a climas e personagens

Veronica Stigger na Bienal do Livro de Brasília. Foto: Agência Brasil

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger é uma das autoras que há mais tempo e com mais consistência vêm trabalhando o fantástico em sua literatura, mas não o fantástico de Game of Thrones ou Harry Potter, e sim o da definição clássica de Todorov: a incerteza que se segue a uma ruptura brusca da realidade na narrativa. É essa outra vez a temática de muitos dos contos reunidos em seu livro, Sombrio Ermo Turvo. Mas aliado a isso, há uma matéria nova. certa profundidade maior no desenho de personagens, que convivem neste livro com muitas das caricaturas satíricas com que a autora costuma povoar seus livros.

Sombrio Ermo Turvo reúne 24 textos divididos em quatro seções. Como já havia demonstrado em trabalhos anteriores, especialmente nos contos de O Trágico e Outras Comédias (2004), Gran Cabaret Demenzial (2008) e Os Anões (2010), seus textos assumem formas diversas de acordo com o tema e o tratamento. A sátira desbragada que estava lá nos primeiros livros agora parece ceder gradativamente lugar à criação de um clima em que não apenas os episódios são recheados de absurdos, mas há um tom vago de ameaça pairando na realidade de cada conto.

Há, portanto, desde contos muito curtos como O Poço e O Boi, o primeiro um quase-poema sobre desespero, e o segundo, uma vinheta sobre violência. Há também textos cuja estrutura e até origem devem ao teatro — é o caso da “comédia de maus costumes” A Casa ou do longo A Piscina, que teve origem em uma peça que a escritora redigiu para o Coletivo Teatro Dodecafônico. Há também uma aguda sátira em forma de ensaio acadêmico no conto O Livro, narrado como uma palestra fictícia de uma acadêmica sem nome sobre um livro inédito da “escritora desaparecida” Veronica Stigger.

Apesar de trazer características que marcam a prosa de Veronica desde sua estreia, especialmente a brevidade ou a linguagem concreta em que adjetivos parecem dar as caras apenas como potencializadores de sarcasmo, Sombrio Ermo Turvo parece desbravar um território novo nas explorações de Veronica na narrativa curta. Há, para além da sátira, ternura e lirismo em contos como O Herói, sobre um improvável deflagrador de uma revolta inusitada envolvendo um estádio de futebol, ou o díptico A Praia e Os Pobres. Embora a crueldade gratuita entre os personagens, comentário social sobre o desconcerto contemporâneo, ainda esteja lá, há momentos em que sua expressão é menos cartunesca e mais voltada ao humano, como A Neve, cujo twist final deixa claro que as vítimas somos todos nós.

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Livros, autores e leituras pelo crítico, jornalista e escritor Carlos André Moreira

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